Glauber em Transe

A dispersão nas teorias de Glauber Rocha sobre o audiovisual: arqueologia e desconstrução

…e na Mostra de Cinema de Ouro Preto

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Em debate intitulado “Glauber Rocha e Rogério Sganzerla: Inventividades dos Anos 60″, ocorrido neste domingo, terceiro dia de programação da Mostra de Cinema de Ouro Preto, depoimentos emocionados de personalidades como a atriz Helena Ignez e os cineastas Andrea Tonacci, Joel Pizzini e Geraldo Veloso testemunharam as aproximações existentes não apenas na obra, mas na vida pessoal de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, homenageados desta terceira edição do evento.

“Esta aproximação entre Glauber Rocha e Rogério Sganzerla proposta pela Mostra de Ouro Preto é nova e revolucionária”, afirmou Helena Ignez, que foi casada com ambos os diretores. “Como diz Paloma [Rocha, filha de Glauber com Helena], eu sou uma atriz glauberiana por excelência, e só pude ser a atriz que fui com Sganzerla por ter essa formação glauberiana”. Da platéia, Luiz Paulino dos Santos, diretor baiano que foi substituído por Glauber na direção de Barravento, filmava a tudo com sua câmera mini-DV.

O diretor Joel Pizzini, casado com Paloma Rocha e que nos últimos anos tem se dedicado à recuperação e documentação da obra de Glauber, levantou em sua fala uma série de aproximações entre as obras de Glauber e Sganzerla – como a utilização de métodos brechtianos em seus filmes, a paixão pela música e a admiração pelo cineasta americano Orson Welles – bem como falsas oposições que, segundo ele, são desmentidas pelos filmes (herói x anti-herói, alta cultura x baixa cultura, nacional x internacional).

“Há um intercâmbio entre Glauber e Rogério. Não é uma via de mão única. Há sim um diálogo tenso entre os dois diretores, mas no sentido criativo, de exercício da polêmica como atitude política”, explica Pizzini. “A poeira baixo e a gente pode analisar tudo isso sem se contaminar pelo contexto. Nesse sentido, a CineOP foi a primeira manifestação que teve a ousadia de fazer essa aproximação entre Glauber e Rogério”.

Pizzini recordou ainda a existência de fitas Super 8, cujo paradeiro atual é desconhecido e que conteriam imagens de Sganzerla e Glauber filmando um ao outro em um festival de rock londrino no início da década de 70. Essa informação, divulgada por Paloma Rocha em entrevista ao catálogo da Mostra de Ouro Preto, tem causado grande curiosidade e mobilização por parte dos presentes quanto à necessidade de se encontrar e resgatar esse documento histórico de importância inestimável para a cultura brasileira.

A própria Paloma, filha de Glauber com Helena e que foi criada por Sganzerla, fez questão de destacar da platéia a importância dessa aproximação. “Essa disputa que se criou pela mídia entre os dois era uma angústia minha desde a infância. Agora me sinto mais aliviada”, confidenciou Paloma.

Finalizando sua fala, Joel Pizzini relatou ainda aos presentes os últimos instantes que teve com Sganzerla antes de sua morte, como uma ilustração da paixão que os dois homenageados possuíam pelo cinema: “Me ligaram da casa de Rogério dizendo que ele havia desmaiado. Corri para lá, chamei uma ambulância e, quando entrei no carro com ele, Rogério me perguntou ‘Cadê sua camereta? Você não vai filmar?’”

Já o cineasta Andrea Tonacci, que juntamente com Rogério Sganzerla e Julio Bressane foi um dos maiores expoentes do chamado Cinema Marginal, relembrou com emoção aquele período dos anos 60: “Fazia-se cinema para mudar o mundo, não para ganhar dinheiro ou ocupar mercado. Devo a Rogério essa compreensão de que o cinema era um instrumento de descoberta, de transformação do mundo. O cinema como um processo vital, não funcional”.

Para Tonacci, Glauber e Sganzerla eram como dois irmãos gêmeos, porém com idades e mães diferentes. “Foi Rogério que me apresentou a Glauber e foi Glauber que convenceu Paulo Gracindo a atuar em meu filme Blá Blá Blá”. Entre as histórias de aproximação entre Glauber e Sganzerla contadas por Tonacci, a que mais divertiu a platéia foi a de uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro. “Fomos de Fusca para o Rio de Janeiro: eu dirigindo, Rogério no banco do passageiro e Glauber atrás, com a cabeça enfiada no meio de nós e falando sem parar durante as seis horas de viagem. Foi assim que ouvimos, em primeira mão, toda a história de Terra em Transe”.

Da platéia, depoimentos emocionados de outros cineastas presentes resumiam o sentimento do público que lotava o auditório do Centro de Convenções. “Estou muito emocionado com este momento que estamos vivendo, dessa revisão e aproximação histórica dos filmes de Glauber e Rogério”, confessou o diretor mineiro Geraldo Veloso. Já para o carioca Noilton Nunes, que veio a Ouro Preto representando a Abraci – Associação Brasileira de Cineastas, “Este encontro de Ouro Preto já é a melhor coisa que aconteceu em 2008″.

Na seqüência, o debate “Os Anos 60 Além do Cinema Novo” contou com a presença dos cineastas Walter Lima Jr e Geraldo Veloso e dos pesquisadores José Américo Ribeiro e Rubens Machado Jr para discutir toda uma produção da década de 60 que ficou relegada ao esquecimento histórico, à sombra do Cinema Novo. Em sua fala, Rubens Machado destacou a importância fundamental de se reavaliar mesmo os filmes e períodos ignorados pelos críticos da época e lembrou de Jairo Ferreira, como um dos únicos críticos a se atentar a essa outra produção dos anos 60, que incluía chanchadas tardias, filmes de cangaço e policiais.

Ao se falar de uma produção virtualmente invisível da década de 60 (a dificuldade de acesso a cópias desses filmes foi uma questão recorrente ao longo do debate) a discussão inevitavelmente migrou para a ocupação de mercado e para a atual situação do cinema brasileiro. Sobre isso, Walter Lima Jr, que está em Ouro Preto apresentando seu novo filme Os Desafinados, afirmou: “Um diretor que venha da TV e que faça um filme de 3 milhões de espectadores para mim é um fracasso. Se eles fazem 80 milhões com a novela, para que vão fazer cinema para 3 milhões?”

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Dando continuidade à programação em homenagem a Glauber Rocha e Rogério Sganzerla, cerca de 400 pessoas lotaram o Cine Vila Rica para assistirem O Bandido da Luz Vermelha, longa de estréia de Sganzerla. Na platéia, uma imagem ilustrou com perfeição o caráter histórico do que vem ocorrendo em Ouro Preto: sentados na primeira fila, Eryk Rocha e Pedro Paulo Rocha, filhos de Glauber, aguardavam o início da projeção do clássico maior de Sganzerla.

Além da exibição dos vídeos da série “Impossibilidades”, dos curtas reunidos sob a temática “A Realidade Sob Novos Olhares” e do média-metragem Margem, de Maya Da-Rin, dois longas tiveram sua estréia em Minas Gerais neste domingo: O Fim da Picada, de Christian Saghaard, e Nossa Vida Não Cabe Num Opala, de Reinaldo Pinheiro, filme que levou cinco prêmios no 12º CinePE, incluindo o de Melhor Filme, e que foi aplaudido em cena aberta por um cinema lotado em sua exibição aqui em Ouro Preto, reforçando seu forte apelo junto ao público.

Escrito por glauberemtranse

Junho 16, 2008 às 8:06 pm

Publicado em Clipagens

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